terça-feira, 30 de abril de 2013

"Sol Inclemente"



Quem anda pelo agreste nordestino, invariavelmente, se depara com cenas de animais morrendo de fome e de sede. Aqui o clima não é cordato com os mais fracos. 

Porém, ultimamente, tal fato, infelizmente, tornou-se muito comum. A estiagem persistente que assola nossa região tem se configurado como um algoz que dizima não só aos animais, mas também a vegetação tem sido castigada, inclusive espécies resistentes da caatinga sofrem com a seca.


Os nossos ânimos estão bem debilitados; não é raro encontrarmos com pessoas que relatam seus dramas chorando. Esta circunstância tem minado a fé e a esperança, de modo que a seca que fragiliza a fauna e a flora agrestina, da mesma forma, vai fragilizando nossas emoções.


Ontem, num passeio, aqui pertinho de minha casa (talvez uns 20 km de distância) encontrei a cena da foto, uma vaca morrendo de fome... Uma situação terrivelmente constrangedora, pela incapacidade de reação inserida naquele contexto. Não há muito o que se feito, num caso assim.


Fragilizado em minhas emoções, chorei copiosamente, não só pela angústia daquele animal, mas também pela história que aquele cenário traduzia. Aquela não era apenas mais uma vaquinha entre milhares e milhares que já morreram este ano. Ela morria a míngua sob um céu de um azul insistente, próximo ao curral, onde certamente pariu lindas crias e onde, toda madrugada e tardinha, o vaqueiro a ordenhava, alimentado sua família e tirando seu sustento.


Era quase que um ente querido, cuidado naqueles últimos instantes de vida com tanto amor. Para impedir que o “sol inclemente” (cantado por Luiz Gonzaga) castigasse ainda mais aquela, que por certo, teria nome; quem sabe “estrela”, “pretinha” ou "coração"!). 
Foi improvisada uma tenda com três ou quatro forros tirados da própria cama do seu dono. Para saciar a sede, estava servida com água barrenta (o resto do barreiro, mas o melhor que se tinha por lá) e para diminuir a fome (a tinhosa que estava lhe matando) um pouco de farelo molhado, comprado com o dinheiro que, por certo, foi tirado da feira, do mantimento da família.


Sim! Não era um animal qualquer, era quase um parente, uma amiga querida, que não podia morrer a míngua! Bastava-lhe o mau trato que a seca lhe impunha, o desprezo que a fome havia lhe dado... A família que tanto a amava, não a desprezou.


Desprezo, aliás, tem sido um companheiro indesejado, mas tão presente no sertão. O clima o despreza, a sociedade através de políticas públicas inadequadas o despreza e tanto mais parece desprezar-lhe.


Porém, resta-nos o grande alento e desejo, que assim como aqueles forros de cama a sombra do Altíssimo nos cubra e aplaque o sol que nos torra insistentemente; que Ele disponibilize da “Água da Vida”, matando a sede do nosso torrão. Que nos alimente com seu Pão e que perseveremos até que vejamos a completa redenção do querido sertão nordestino.


“Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”. Romanos 8: 22-23.



Que o Senhor compadeça desse sofrido sertão.

Marcos Sal da Terra.

Alcançando o Sertão

Acreditamos que a proclamação do Evangelho deve ser abundante no Sertão Nordestino, principalmente na Zona Rural, para que assim possam...